Home Artigo Câncer gástrico: quando sintomas digestivos comuns exigem investigação – Dra. Maria Ignez Braghiroli

Câncer gástrico: quando sintomas digestivos comuns exigem investigação – Dra. Maria Ignez Braghiroli

by Nelson Coelho

Oncologista alerta para sinais do câncer gástrico

Com mais de 22 mil novos casos estimados por ano no Brasil, câncer de estômago pode apresentar sintomas semelhantes aos de problemas digestivos comuns; diagnóstico em fases iniciais pode ampliar as possibilidades de tratamento

Azia, refluxo, desconforto no estômago, perda de apetite. Sintomas tão comuns no dia a dia podem acabar sendo normalizados ou atribuídos a problemas digestivos corriqueiros. Na maioria das vezes, de fato, não são sinal de doença grave. Mas quando surgem pela primeira vez, persistem, pioram ou mudam de característica a longo prazo, merecem investigação médica.

O alerta é da oncologista clínica Maria Ignez Braghiroli, diante de um dos tipos de câncer que continua representando um desafio importante no país. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 22.530 novos casos de câncer de estômago por ano no Brasil entre 2026 e 2028, sendo 13.830 em homens e 8.700 em mulheres. Entre os homens, é o quarto tipo de câncer mais incidente, quando excluídos os tumores de pele não melanoma. Em 2024, foram registradas 14.917 mortes pela doença no país.

“Isso não significa que uma pessoa com azia ou dor de estômago tenha câncer. Na enorme maioria das vezes, não terá. Mas um sintoma novo, persistente ou progressivo não deve ser normalizado, principalmente em alguém com fatores de risco”, afirma Maria Ignez.

Sintomas podem ser confundidos com condições comuns

Um dos desafios do câncer gástrico é justamente a ausência de sinais específicos em suas fases iniciais. Quando presentes, eles podem se parecer com manifestações de gastrite, refluxo ou úlcera. Entre os sintomas que merecem atenção estão perda de peso sem explicação, falta de apetite, náuseas, vômitos, dor ou desconforto na parte superior do abdômen e sensação de estômago cheio.

Para Maria Ignez, mais importante do que interpretar um sintoma isoladamente é observar seu comportamento ao longo do tempo.

“Um refluxo que muda de característica ou não melhora com o tratamento, uma úlcera que não responde como esperado, perda de peso, vômitos ou anemia sem uma causa que explique o quadro são situações que precisam levar à investigação”, explica.

No Brasil, não há recomendação para rastreamento populacional do câncer de estômago em pessoas sem sintomas. Por isso, reconhecer sinais suspeitos e garantir acesso à investigação adequada ganha ainda mais importância. O principal exame utilizado para detectar a doença é a endoscopia digestiva alta, que permite visualizar o estômago e coletar material para biópsia quando há alterações suspeitas.

Descobrir cedo pode mudar a jornada do paciente

O estágio em que o câncer gástrico é diagnosticado influencia diretamente as possibilidades terapêuticas. Em casos muito iniciais e selecionados, o tumor pode ser tratado por procedimento endoscópico. Quando a doença está localizada, a cirurgia tem papel central e, dependendo das características e da extensão do tumor, pode ser associada a tratamento sistêmico antes e/ou depois da operação. Nos casos em que a doença já se espalhou para outros órgãos, a abordagem é predominantemente sistêmica.

“Faz toda a diferença identificar em que momento essa doença foi descoberta. Em uma fase muito inicial, há situações em que conseguimos tratar pela própria endoscopia. Conforme a doença avança, a estratégia se torna mais complexa e pode exigir a combinação de diferentes modalidades de tratamento”, explica a oncologista.

Essa complexidade reforça também a importância da avaliação multidisciplinar. Cirurgiões, oncologistas e outros especialistas podem participar da definição da estratégia de cuidado, considerando o estágio da doença, as características do tumor e as condições clínicas de cada paciente.

Prevenção começa antes do diagnóstico

Além do desafio do diagnóstico precoce, o câncer gástrico está associado a fatores de risco que podem ser prevenidos ou modificados. A infecção pela bactéria Helicobacter pylori é um importante fator relacionado à doença. Excesso de peso, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas e ingestão excessiva de sal e alimentos salgados ou conservados em sal também estão entre os fatores associados ao aumento do risco.

“Quando pensamos no futuro do câncer gástrico no Brasil, precisamos olhar para várias frentes. Prevenção passa por melhores condições de vida e hábitos mais saudáveis. Depois, há o desafio de ampliar o acesso ao diagnóstico e compreender cada tumor de maneira cada vez mais individualizada”, afirma Maria Ignez.

Segundo a médica, os avanços científicos também apontam para uma oncologia cada vez mais orientada pelas características biológicas de cada tumor. Ferramentas de diagnóstico molecular e tecnologias como a análise de DNA tumoral circulante são investigadas como formas de aprofundar a compreensão da doença e, no futuro, ajudar a refinar decisões terapêuticas.

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