
Marcas que não cicatrizavam no rosto eram câncer de pele: paciente conta como a pesquisa científica mudou o rumo do seu tratamento.
Estudo inédito com 1.415 casos, liderado por cirurgião de Mohs de Curitiba, mostra como a ciência está tornando essas cirurgias mais precisas e menos invasivas
Feridas que nunca saram podem ser carcinoma basocelular. (Imagem ilustrativa gerada por IA)
Duas pequenas marcas no rosto que formavam casquinhas e voltavam a aparecer, sem nunca cicatrizar de vez. Foi assim que o ilustrador Jan Savaris Soares, 35 anos, começou a desconfiar de que algo estava errado na pele. O que ele não imaginava é que aquelas lesões – uma abaixo do olho esquerdo, próxima ao nariz, e outra do lado direito do nariz – eram dois carcinomas basocelulares, o tipo mais comum de câncer de pele.
“Procurei uma dermatologista porque havia duas marcas no rosto que não desapareciam com o tempo. Foi somente quando recebi o resultado do laboratório que descobri que se tratava de dois carcinomas basocelulares”, conta Jan.
O diagnóstico veio como um susto. “A preocupação foi estética, por serem áreas muito visíveis e delicadas do rosto, e com minha saúde, pois também tive medo de que o tratamento fosse mais complicado do que eu imaginava.”
A busca por um tratamento mais preciso
Diante de tumores em uma região tão sensível e visível do rosto, a dermatologista que fez a biópsia o encaminhou para avaliar a Cirurgia Micrográfica de Mohs. A técnica ainda é pouco conhecida do grande público, mas considerada padrão-ouro internacional para remoção de câncer de pele em áreas como rosto e orelhas. Ela permite a retirada do tumor com margens mínimas de tecido saudável e altíssima taxa de cura devido ao exame completo das margens cirúrgicas no microscópio durante o procedimento.
A indicação levou Jan até o dermatologista e cirurgião de Mohs Dr. Felipe Cerci, referência nacional na técnica. “Pesquisei sobre os profissionais que a dermatologista havia me indicado. Foi assim que cheguei ao site do Dr. Cerci. Lá vi suas premiações em eventos científicos, inúmeras publicações científicas e que havia até livros de sua autoria. Do ponto de vista técnico, isso me transmitiu bastante confiança, pois mostrou que ele estava envolvido tanto com a prática quanto com a pesquisa na área”, relembra o paciente.
Antes da cirurgia, o medo de ficar com cicatrizes ou de o tumor não ser completamente removido ainda rondava Jan. Segundo ele, foi a explicação detalhada do médico, mostrando no próprio rosto como seriam feitos os cortes, que trouxe segurança para seguir em frente. “O medo é alimentado, principalmente, pelo desconhecimento. Saber como o tratamento seria conduzido me trouxe mais tranquilidade e reduziu minha ansiedade.”
Quando a pesquisa científica torna-se cuidado com o paciente
Curioso com o próprio diagnóstico, Jan foi além da consulta: leu artigos científicos sobre a técnica e sobre taxas de cura. Também buscou relatos de outros pacientes que já haviam passado pela Cirurgia de Mohs. Essa experiência o fez refletir sobre o papel da ciência na própria recuperação. “A pesquisa científica é fundamental. Além de contribuir com inovações e aperfeiçoamentos, também permite que os resultados sejam revisados, com número robusto de pacientes e estatística. Por meio da pesquisa é possível alcançar resultados mais seguros”, avalia.
É exatamente esse tipo de avanço que move o trabalho do Dr. Felipe Cerci fora do consultório. Pesquisador ativo, com mais de 60 artigos científicos publicados, e autor de dois livros de referência sobre reconstrução facial pós-Mohs, o médico integra grupos de pesquisa no Brasil e nos Estados Unidos, e acaba de concluir um estudo inédito capaz de tornar cirurgias como a de Jan ainda mais precisas.
1.415 tumores analisados
A pesquisa avaliou 1.415 carcinomas basocelulares primários de cabeça e pescoço, tratados por Cirurgia de Mohs entre 2018 e 2025, e identificou sinais no exame de dermatoscopia associados à maior chance de o tumor ter raízes microscópicas.
O exame já é rotineiro no diagnóstico do câncer de pele, mas não havia estudos que correlacionaram achados dermatoscópicos com uma cirurgia mais longa e complexa. Alguns carcinomas parecem pequenos a olho nu, mas se alastram de forma invisível por baixo da pele, exigindo a remoção de várias camadas de tecido até que todas as margens estejam livres da doença.
O estudo mostrou que a presença de áreas róseas e brancas brilhantes, múltiplas erosões e/ou telangiectasias finas no exame de dermatoscopia estão associadas a essa extensão invisível do tumor. Já a presença de estruturas pigmentadas, como glóbulos azul-acinzentados, apareceu como um sinal protetor, indicando tumores mais restritos e previsíveis.
“O estudo mostra que a dermatoscopia pode fornecer informações que vão além do diagnóstico. Alguns achados observados antes da cirurgia podem indicar que o tumor se estende além do que conseguimos enxergar clinicamente. Isso permite um planejamento mais preciso do procedimento e uma orientação mais adequada ao paciente sobre a duração e a complexidade da cirurgia”, explica o Dr. Felipe Cerci, autor principal do trabalho.
O trabalho foi realizado em conjunto com as Dras. Bruna Cabral Meira Chaves e Betina Werner. É o primeiro estudo do mundo a demonstrar que critérios da dermatoscopia, e não apenas características clínicas e histológicas, como se sabia até então, também ajudam a prever a complexidade cirúrgica de um carcinoma basocelular. O estudo foi premiado em primeiro lugar no Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica (categoria trabalho de investigação), realizado esse ano em Goiânia.
“Fico feliz, atualmente, quando consigo explicar para os outros sobre a técnica, e quem sabe poder contribuir com outras pessoas que desconhecem o Mohs e estejam passando por situações parecidas à que passei”, diz o paciente, hoje curado.
Felipe Bochnia Cerci é dermatologista e um dos principais especialistas do Brasil em Cirurgia Micrográfica de Mohs, com mais de 2.500 cirurgias realizadas no país, após seu aperfeiçoamento de 2 anos e 4 meses em centros de referência nos Estados Unidos. Formado pela PUC-PR em 2008, com mestrado e doutorado pela UFPR, já apresentou palestras nos Estados Unidos, Espanha, Grécia, Colômbia, Uruguai, Taiwan e Emirados Árabes Unidos.Também é autor e coautor de mais de 60 artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais, de dois livros sobre reconstrução facial após a Cirurgia de Mohs.
