
O custo da picaretagem no tratamento do câncer de mama
Guilherme Novita
O câncer de mama é uma das doenças mais estudadas da medicina moderna. Graças aos avanços científicos das últimas décadas, hoje sabemos que detectado precocemente apresenta taxas de cura superiores a 95%. Esse resultado não é fruto do acaso, mas sim de muitos anos de pesquisa séria, envolvendo milhões de mulheres em diferentes países e validação rigorosa de métodos de rastreamento e tratamentos eficazes.
Entre todas as estratégias disponíveis, a combinação de mamografia anual a partir dos 40 anos de idade e tratamento adequado, quando necessário, permanece como abordagem mais eficiente para reduzir as taxas de mortalidade pela doença.
Apesar dos recursos de diagnóstico e tratamento e do respaldo da ciência, muitas pessoas ainda preferem acreditar em promessas de curas milagrosas oferecidas por charlatães que exploram o medo e a vulnerabilidade dos pacientes. Frequentemente, essas falsas soluções são vendidas a preços elevados, alimentando a esperança de quem busca alternativas mais simples ou menos agressivas do que os tratamentos convencionais.
Entre os principais absurdos que circulam atualmente estão afirmações de que a mamografia causa câncer ou de que o câncer de mama poderia ser tratado com hormônio masculino.
Na verdade, a história da medicina está repleta de exemplos semelhantes. Desde os tempos medievais, surgiram inúmeras tentativas de vender curas milagrosas para doenças graves. Sangrias, poções e elixires mágicos perderam espaço ao longo dos séculos, mas foram substituídos por versões modernas do mesmo problema: soros de “imunidade”, protocolos exclusivos e tratamentos supostamente revolucionários, geralmente oferecidos apenas na clínica do autoproclamado descobridor de uma cura que ninguém mais conhece ou consegue reproduzir.
Mas qual é o verdadeiro preço dessa picaretagem? O primeiro e mais importante é o custo para a própria paciente. Enquanto falsas promessas são seguidas, o câncer normalmente continua crescendo. Com o passar do tempo, a doença pode se tornar mais extensa, exigindo tratamentos mais agressivos com maior risco de sequelas e redução das chances de cura.
Existe também um impacto coletivo frequentemente ignorado. Quanto mais avançado o câncer no momento do diagnóstico, maior o custo do tratamento para o sistema de saúde, seja ele público ou privado. Cirurgias mais complexas, quimioterapias mais prolongadas, hospitalizações e intervenções de alto custo tornam-se mais frequentes.
E o que cada cidadão tem a ver com esse aumento de custos? No final do dia, tudo. Na saúde suplementar, o acréscimo das despesas acaba sendo repassado para os beneficiários por meio de mensalidades mais altas ou da necessidade de restringir coberturas. Já no Sistema Único de Saúde (SUS), recursos que deveriam ser utilizados para atender pacientes que realmente necessitam acabam sendo consumidos por situações que poderiam ter sido evitadas com diagnóstico e tratamento precoces.
Nesse cenário, a informação de qualidade torna-se uma das principais ferramentas de proteção da população. Pesquisa recente realizada pelo Instituto IPSOS, patrocinada pela Novartis e apoiada pela Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), mostrou que embora a maioria da população conheça o câncer de mama, uma parcela considerável ainda possui informações limitadas sobre a doença e enfrenta dificuldades para realizar exames preventivos.
Por isso, a melhor “vacina” contra pessoas inescrupulosas continua sendo o acesso à informação confiável. Quanto mais conhecimento científico chegar à população, menores serão as oportunidades para que falsas promessas prosperem. Combater a desinformação não é apenas uma questão de proteger pacientes individuais. É uma forma de preservar vidas, fortalecer a confiança na ciência e garantir que os recursos da saúde sejam utilizados em benefício de todos.
- Guilherme Novita é mastologista e presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM)
