Para muitos tutores de cães, a notícia de que seu animal foi diagnosticado com leishmaniose visceral canina vem acompanhada de uma sentença dolorosa: a eutanásia do animal. A enfermidade, que é uma zoonose, tem grande impacto em saúde pública e pode levar a óbito em até 90% dos casos se não for tratada.
A enfermidade faz parte do grupo de doenças tropicais negligenciadas, ou seja, aquelas que recebem menos investimentos em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos e vacinas, apesar de afetarem milhões de pessoas em países em desenvolvimento. No Brasil, ela ainda é associada a desigualdades regionais e atinge mais gravemente áreas rurais e comunidades vulneráveis. Não à toa, Maranhão, Piauí, Ceará, Bahia, Pará, Minas Gerais, Tocantins e Mato Grosso do Sul são os Estados mais afetados, com alta incidência de novos casos.
Atualmente, o Ministério da Saúde (MS) indica a eutanásia de cães diagnosticados com a doença. No caso de animais com tutores, a prática traz não apenas dor emocional às famílias, mas também pouca efetividade no controle da doença. “Não é fácil para eles sacrificarem seus animais. Muitas vezes, eles os mantêm em casa e não tomam as medidas necessárias”, afirma a doutora em bioquímica e biologia molecular [b]Reysla Mariano[/b].
[b]Alta taxa de transmissão[/b]
Entre 2011 e 2020, por exemplo, foram confirmados no Brasil mais de 33 mil casos de leishmaniose – uma média de 3,3 mil por ano, segundo dados do MS. A forma visceral da doença, mais grave e potencialmente fatal, apresentou média de 2 mil casos notificados anualmente. Por ser uma zoonose, a leishmaniose visceral conecta a saúde animal à humana: assim, a falta de controle em cães reflete diretamente em novos casos entre pessoas.
As medidas preventivas existentes atualmente incluem o uso de coleiras repelentes e inseticidas, mas a eficácia dessas opções é limitada. “Mesmo com essas estratégias, a gente ainda tem uma alta taxa de transmissão”, destaca Mariano. Para o MS, trata-se de um desafio de saúde pública, especialmente quando envolve cães de rua e o controle se torna praticamente impossível.
A doença é transmitida por um vetor específico: o flebotomíneo, popularmente conhecido como mosquito-palha. Quando esse inseto pica um cão infectado e, em seguida, um ser humano, pode transmitir o parasito causador da leishmaniose a ele. “O animal é um reservatório do parasito”, lembra Mariano. “Para evitar a disseminação, é necessário que haja uma medida de controle eficaz.”
[b]Formulação inédita[/b]
É justamente o desenvolvimento dessa fórmula o objeto de estudo do grupo de pesquisa do professor [b]Rodolfo Giunchetti[/b], veterinário experiente no segmento de vacinas contra leishmaniose visceral canina e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A trajetória acadêmica de Mariano a levou até ele e lá ela se dedicou à pesquisa para o desenvolvimento da vacina terapêutica. “Desde o doutorado, eu já pesquisava doenças negligenciadas”, lembra.
O diferencial da vacina desenvolvida pelo grupo é seu mecanismo de ação: é uma abordagem que impede que a infecção se espalhe ao induzir uma resposta imunológica no cão com leishmaniose visceral, que evita que o parasito seja transmitido ao inseto vetor. Isso significa que, se o mosquito-palha picar um cão vacinado, o parasito não poderá ser transmitido. “Tivemos muito sucesso com as provas de conceito e os testes preliminares”, diz Mariano.
A pesquisadora lembra que a criação de vacinas contra parasitos é mais complexa do que aquelas contra vírus ou bactérias. Isso porque parasitos como a Leishmania usam estratégias sofisticadas de evasão do sistema imunológico. Essa dificuldade explica por que, até hoje, o mercado ainda não oferece soluções consolidadas nessa área.
Por isso, a tecnologia representa um avanço significativo. E o potencial impacto da formulação vai além da saúde animal: como a leishmaniose visceral canina é um desafio de saúde pública que afeta humanos, sua prevenção interessa ao próprio MS. O projeto teve apoio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP.
A criação da vacina terapêutica contra a leishmaniose visceral canina ilustra o potencial da ciência brasileira. Para que ela progrida, entretanto, é necessário que haja convergência entre pesquisa de qualidade, políticas públicas de fomento, infraestrutura adequada e visão empreendedora.
[b]Filial em São Paulo[/b]
O desenvolvimento do imunobiológico inclui fases sucessivas de testes clínicos, com rigor regulatório e custos altos. Os testes da fase 2 estavam programados para ocorrer em municípios do norte de Minas Gerais, que compõem uma região endêmica próxima a Montes Claros. “As regiões mais atingidas são aquelas um pouco mais negligenciadas, com falta de recursos”, descreve a pesquisadora. “Além disso, são locais com menos acesso à informação.”
Para dar continuidade ao processo, então, a startup abriu uma filial em São Paulo. E o apoio para isso veio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai): a instituição, que é frequentemente associada apenas à formação técnica, tem uma vertente de apoio à inovação. Para isso, mantém um laboratório avançado de biotecnologia, com equipamentos que permitem de manipulações moleculares a ensaios clínicos em escala laboratorial.
Mariano comenta que o Instituto Senai de Inovação (ISI) em Biotecnologia desempenhou papel fundamental no progresso da pesquisa. “Eles têm uma estrutura muito boa que nos deu suporte e condição para continuar a pesquisa iniciada em Minas Gerais”, descreve. “Para nós, o Senai ofereceu a oportunidade de transformar a pesquisa básica em algo mais aplicável, que pudesse ser comercializado.”
[b]Futuro da pesquisa[/b]
Os cientistas envolvidos no projeto buscam completar os testes clínicos da vacina terapêutica, um processo que pode levar anos e que requer investimentos significativos. A expectativa é que, uma vez comprovada a eficácia da fórmula, a tecnologia seja licenciada para empresas farmacêuticas veterinárias. “O objetivo sempre foi desenvolver a tecnologia e transferi-la.”
A pandemia de COVID-19 demonstrou como a dependência de insumos e tecnologias estrangeiras pode paralisar a ciência e a saúde no Brasil. “Durante a pandemia, percebemos que é importante valorizar produtos nacionais e pesquisadores brasileiros. Quando tudo foi fechado, ficamos sem acesso a muitos itens.” No campo das doenças negligenciadas, essa dependência é ainda mais crítica, já que o interesse comercial por elas costuma ser baixo.
