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Cirurgia cardíaca neonatal avança e amplia as possibilidades de tratamento – Dr. José Cícero Stocco Guilhen

by Nelson Coelho

Cirurgia cardíaca neonatal avança e amplia as possibilidades de tratamento para bebês com cardiopatias congênitas

Diagnóstico precoce, técnicas cirúrgicas mais precisas e equipes especializadas permitem tratar, ainda nos primeiros dias de vida, alterações cardíacas que antes tinham poucas possibilidades de intervenção

Nas últimas décadas, a cirurgia cardíaca neonatal passou por uma transformação importante. Bebês que nascem com cardiopatias congênitas graves, algumas delas com necessidade de intervenção ainda nos primeiros dias de vida, hoje podem contar com diagnóstico mais precoce, técnicas cirúrgicas mais precisas, anestesia especializada, circulação extracorpórea adaptada ao recém-nascido e unidades de terapia intensiva preparadas para pacientes de alta complexidade.

O avanço é especialmente relevante porque algumas cardiopatias críticas podem levar a uma rápida deterioração clínica após o nascimento. Entre elas estão a transposição das grandes artérias, a síndrome da hipoplasia do coração esquerdo e a atresia pulmonar. Nesses casos, o intervalo entre identificar o problema, estabilizar o bebê e iniciar o tratamento pode ser determinante.

De acordo com o Ministério da Saúde, as cardiopatias congênitas estão entre as condições que podem ser identificadas ainda durante a gestação ou por meio da avaliação via pré-natal. O diagnóstico precoce permite organizar o nascimento e o atendimento em serviços preparados para oferecer assistência especializada
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Para Dr. José Cícero Stocco Guilhen, cirurgião cardiovascular pediátrico do Hospital e Maternidade Santa Joana, a evolução da área não está relacionada apenas ao desenvolvimento das técnicas cirúrgicas, mas à capacidade de integrar diferentes etapas do cuidado.

“A cirurgia cardíaca neonatal evoluiu muito porque hoje conseguimos identificar a cardiopatia mais cedo e preparar toda a estrutura necessária para receber esse recém-nascido. Não se trata apenas de operar um coração pequeno. É preciso ter uma equipe especializada em cardiologia pediátrica, cirurgia cardiovascular, anestesia, perfusão, terapia intensiva e neonatologia, trabalhando de maneira integrada”, explica.

Essa preparação pode começar antes mesmo do nascimento. O ecocardiograma fetal permite identificar determinadas alterações cardíacas durante a gestação e, diante de uma cardiopatia complexa, possibilita que a equipe planeje o parto, a estabilização do bebê e o tratamento necessário logo após o nascimento. O próprio Ministério da Saúde estabelece o diagnóstico pré-natal, o diagnóstico neonatal, o transporte seguro, a assistência cirúrgica e o acompanhamento multidisciplinar como etapas da linha de cuidado das crianças com cardiopatias congênitas.

Quando a alteração não é identificada durante o pré-natal, a triagem neonatal também exerce papel importante. O Teste do Coraçãozinho, realizado entre 24 e 48 horas de vida, utiliza a oximetria de pulso para verificar a oxigenação do sangue e pode indicar a necessidade de investigação complementar. Quando há alteração, o recém-nascido deve ser encaminhado para avaliação, que pode incluir ecocardiograma e atendimento em um centro especializado.

“O tempo é um dos fatores mais importantes nesses casos. Um bebê com uma cardiopatia crítica pode precisar de estabilização imediatamente, de medicamentos para manter determinadas estruturas da circulação abertas e, dependendo da anatomia, de uma intervenção cirúrgica ou por cateterismo. Quanto mais cedo sabemos qual é o problema, maior é a possibilidade de organizar o tratamento de forma adequada”, afirma Dr. José Cícero.

A evolução também aconteceu dentro do centro cirúrgico. O aprimoramento da circulação extracorpórea, dos equipamentos de monitorização, das técnicas de proteção cerebral e miocárdica, da anestesia e dos cuidados intensivos ampliou as possibilidades de tratamento para recém-nascidos com anatomias cardíacas complexas. A própria regulamentação do Ministério da Saúde prevê que os serviços de alta complexidade em cirurgia cardiovascular pediátrica tenham estrutura física, equipe qualificada e profissionais de diferentes áreas para acompanhar o paciente durante o tratamento e o pós-operatório.

O avanço da área também mudou a perspectiva sobre o que significa sucesso no tratamento. Se antes o principal objetivo era superar o período cirúrgico imediato, hoje a assistência busca oferecer condições para que a criança tenha desenvolvimento adequado e qualidade de vida ao longo dos anos. Dependendo da cardiopatia, o tratamento pode envolver mais de uma intervenção e exige acompanhamento cardiológico e multidisciplinar durante a infância.

“Quando recebemos um recém-nascido para uma cirurgia cardíaca, estamos tratando uma criança que tem toda uma vida pela frente. O resultado que buscamos não é somente sair da cirurgia. É oferecer a melhor condição possível para que ela cresça, se desenvolva e tenha qualidade de vida”, ressalta o especialista.

A evolução da cirurgia cardíaca neonatal, portanto, vai além da sala de operação. Ela envolve reconhecer a doença mais cedo, definir o local adequado para o nascimento, estabilizar o recém-nascido, escolher o momento correto da intervenção e garantir acompanhamento especializado depois dela. Em cardiopatias críticas, nas quais poucas horas podem alterar a condição clínica do bebê, a integração entre diagnóstico, tecnologia e equipes especializadas pode ampliar significativamente as possibilidades de tratamento.

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