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Solidão é o fator mais associado à pior saúde mental dos brasileiros, aponta Panorama da Saúde Mental 2026

by Nelson Coelho

A solidão aparece como o achado mais contundente da quinta edição do Panorama da Saúde Mental, realizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel. Mais de um terço dos brasileiros, 36,5%, relatou ter se sentido sozinho ao menos uma vez nas duas semanas anteriores à pesquisa. Entre aqueles que vivenciaram esse sentimento três vezes ou mais, o Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM) foi de 383 pontos, ante 782 pontos entre quem não se sentiu sozinho, a maior diferença encontrada entre os hábitos e comportamentos avaliados no levantamento.


Considerando todos os que relataram solidão, independentemente da frequência, o ICASM foi de 478,2 pontos, contra 782,3 entre aqueles que não relataram esse sentimento, uma diferença de aproximadamente 304 pontos. Os dados reforçam a centralidade das conexões sociais para a saúde mental: entre os hábitos associados a melhores resultados, encontrar amigos aparece como o principal contraponto à solidão. Quem encontrou amigos apresentou ICASM de 736,9 pontos, contra 539 pontos entre quem não se encontrou com amigos.


A solidão também se mostrou mais frequente entre determinados grupos. 51,7% dos solteiros relataram esse sentimento, ante 26,6% dos casados; entre pessoas com diagnóstico de transtorno mental, o percentual foi de 52,5%, contra 32,5% entre aquelas sem diagnóstico. O uso intenso de redes sociais também aparece associado: 46,8% daqueles que passam três horas ou mais por dia nas redes relataram solidão, ante 26,1% entre usuários moderados.
Os vínculos familiares e a autoimagem ajudam a completar esse retrato. Entre quem nunca se encontrou com amigos, 54,6% relataram solidão, contra 19,4% entre aqueles que encontraram amigos três vezes ou mais. Já entre quem brigou com familiares com frequência, a prevalência de solidão chegou a 84,2%, ante 24,4% entre quem não relatou conflitos familiares.

Inteligência artificial começa a ocupar espaço na busca por apoio emocional
Pela primeira vez, o Panorama investigou a relação entre inteligência artificial e saúde mental. 86,4% dos brasileiros já utilizaram algum tipo de ferramenta de IA, enquanto 51,9% já usaram geradores de texto ou conversa, como ChatGPT, Gemini e Copilot. Apesar da ampla adoção, apenas 31,3% se consideram com conhecimento médio ou alto sobre o tema.


O levantamento mostra que 9,1% da população já utilizou “terapia por chatbot”, 15% recorreram à IA em momentos de crise e 8,8% já a utilizaram especificamente para se sentir menos sozinhos ou ter interação. Entre os usos de IA ligados à saúde mental, recorrer à tecnologia para combater a solidão foi o comportamento mais associado a menores indicadores de saúde mental.
A relação entre solidão e IA é particularmente marcante: entre quem não relatou solidão, 1,8% utilizaram IA para buscar companhia; o percentual sobe para 8,5% entre quem relatou solidão uma ou duas vezes e chega a 32,1% entre aqueles que se sentiram sozinhos três vezes ou mais. O uso de “terapia por chatbot” também sobe de 4,8% para 25,3% conforme aumenta a frequência de solidão.
Entre as razões apontadas para preferir a IA a um terapeuta humano aparecem menor custo, disponibilidade 24 horas e menor sensação de julgamento. Os três fatores também estão associados a ICASM mais baixo, sugerindo que barreiras ao cuidado tradicional podem ajudar a explicar parte dessa procura.
Os jovens estão na linha de frente dessa transformação. 81,3% das pessoas de 16 a 24 anos já utilizaram geradores de texto ou conversa, e 71,4% fazem uso frequente de ferramentas de inteligência artificial. Ao mesmo tempo, apenas 25,6% demonstram preocupação com o avanço da IA, percentual que chega a 62,3% entre pessoas com 60 anos ou mais.

Preocupação financeira segue como a queixa mais frequente
Embora a solidão seja o comportamento mais fortemente associado ao ICASM, a preocupação financeira permanece como a situação mais frequente entre os brasileiros. Ao todo, 78,1% disseram ter se preocupado com dinheiro ao menos uma vez nas duas semanas anteriores à pesquisa.
O impacto acompanha a frequência da preocupação: o ICASM foi de 825,3 pontos entre quem não se preocupou, 742,2 pontos entre quem relatou a preocupação uma ou duas vezes e 557,6 entre aqueles que se preocuparam três vezes ou mais.
A privação alimentar também aparece relacionada ao tema: 17,2% afirmaram ter deixado de se alimentar por falta de dinheiro ao menos uma vez no período. Nesse grupo, o ICASM foi de 502,5 pontos, contra 706,1 entre aqueles que não relataram essa situação.

Sono, cansaço e dificuldade de concentração fazem parte do cotidiano
Os dados revelam também alta prevalência de problemas relacionados ao sono. 70,6% dos entrevistados disseram ter dormido menos de seis horas em pelo menos uma ocasião nas duas semanas anteriores, enquanto 60,7% relataram sonolência durante o dia. Nos dois casos, maior frequência esteve associada a menores pontuações no ICASM.
Os resultados do PHQ-9 reforçam esse cenário. 68,8% relataram cansaço ou pouca energia, 58,3% alterações de sono, 57,9% pouco interesse ou prazer em realizar atividades, 53,6% sentimentos depressivos ou falta de perspectiva e 50,1% dificuldades de concentração.
Entre os jovens, alguns desses sintomas aparecem com ainda mais força. 83,6% das pessoas de 16 a 24 anos relataram pouco interesse ou prazer em fazer as coisas, 70,5% disseram ter se sentido para baixo ou deprimidas e 68,4% relataram dificuldade de concentração.

Autoimagem aparece entre os fatores mais associados à saúde mental
Quase metade dos entrevistados, 49,2%, disse ter se sentido feia ou pouco atraente ao menos uma vez, enquanto 36,3% relataram ter se sentido pouco inteligentes. O ICASM foi de 549,2 pontos entre aqueles que se sentiram pouco atraentes, contra 789,4 entre os demais. Entre aqueles que se sentiram pouco inteligentes, o índice caiu para 503,1 pontos, ante 766,9. coleta
Os jovens aparecem com maior frequência nesses dois indicadores: 62,4% das pessoas de 16 a 24 anos relataram ter se sentido pouco atraentes e 58,2% pouco inteligentes, proporções que caem para 33% e 11,5%, respectivamente, entre pessoas com 60 anos ou mais.

Assédio, preconceito e apostas entram pela primeira vez no Panorama
A edição de 2026 incluiu novos temas ligados ao cotidiano. 62,5% dos brasileiros relataram medo da violência urbana, mas esse sentimento, isoladamente, não apresentou associação significativa com o ICASM.
Já assédio e preconceito, embora menos frequentes, aparecem relacionados a indicadores mais baixos. 13,2% relataram ter sofrido assédio verbal, moral ou sexual nas duas semanas anteriores. O ICASM foi de 457,9 pontos nesse grupo, ante 703,6 entre quem não relatou episódios. Entre os 10,2% que disseram ter sofrido algum tipo de preconceito, o índice foi de 486,2 pontos, contra 692,2 entre os demais.
As plataformas de apostas também aparecem no levantamento. 9,2% disseram ter apostado nas duas semanas anteriores, e o ICASM desse grupo foi de 586,7 pontos, contra 679,7 entre aqueles que não apostaram. Entre apostadores frequentes, a preocupação financeira também aparece com mais força: 77,6% daqueles que apostaram três vezes ou mais relataram preocupação financeira frequente.

Conexão social aparece como fator de proteção
Se a solidão ocupa um extremo dos resultados, comportamentos relacionados a convivência e pertencimento aparecem no sentido contrário. 66,8% disseram ter encontrado amigos nas duas semanas anteriores, e esse grupo apresentou ICASM de 736,9 pontos, contra 539 entre quem não encontrou amigos.
Outras formas de conexão também aparecem associadas a índices mais altos: quem realizou trabalho voluntário apresentou ICASM de 731,3 pontos, contra 654,2 entre quem não realizou, enquanto frequentar igreja ou templo esteve associado a uma diferença de 104,5 pontos no índice. A prática de atividade física também aparece associada a melhores resultados: ICASM de 728,6 entre aqueles que praticaram, ante 621,7 entre os que não praticaram.
Os resultados reforçam uma das conclusões centrais da pesquisa: saúde mental não está ligada apenas a diagnóstico ou tratamento, mas também às condições de vida, às relações sociais, ao sentimento de pertencimento e às possibilidades concretas de apoio e convivência.

Saúde mental melhora em relação a 2023, mas estabilidade marca os últimos anos
O ICASM médio do brasileiro em 2026 foi de 671,1 pontos. O resultado é significativamente superior aos 635,3 pontos registrados na primeira edição, em 2023, mas não apresenta diferença estatisticamente significativa em relação a 2025, quando o índice ficou em 667,3 pontos.
Entre as três dimensões que compõem o indicador, Confiança teve 761 pontos, Vitalidade 689 e Foco 564, mantendo Foco como a dimensão mais frágil do índice.
A idade também se mostrou relevante. Pessoas com 60 anos ou mais apresentaram ICASM de 806 pontos, significativamente superior ao das demais faixas etárias. O índice foi de 638,1 entre 16 e 24 anos, 591,4 entre 25 e 34 anos, 599,1 entre 35 e 44 anos e 689,7 entre 45 e 59 anos.


O Panorama da Saúde Mental, idealizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, é uma pesquisa nacional anual pioneira que reúne entre 4.000 e 5.000 respondentes por edição. Realizado desde 2023, produz dados e evidências sobre os principais desafios, tendências e necessidades da população brasileira, contribuindo para orientar políticas públicas e iniciativas de prevenção e promoção da saúde mental.

Nesta edição, o levantamento investiga a relação entre determinantes sociais e a saúde mental, destacando preocupações e fontes de estresse entre diferentes grupos populacionais.
Um de seus principais indicadores é o Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM), calculado a partir das respostas ao Questionário Geral de Saúde (GHQ-12). Expresso em uma escala de zero a mil pontos, o índice permite acompanhar a evolução dos resultados e comparar grupos nas dimensões de confiança, vitalidade e foco. Quanto maior a pontuação, melhores os indicadores nessas três dimensões.


O Instituto Cactus é uma organização filantrópica, independente, sem fins lucrativos e de direitos humanos, dedicada à promoção da saúde mental e à prevenção de doenças no Brasil, com atenção prioritária a mulheres e adolescentes. Sua atuação se concentra em duas frentes complementares: grant-making, por meio do fomento estratégico a projetos e iniciativas, e advocacy, com foco na qualificação do debate público e no fortalecimento de políticas de saúde mental. A organização apoia a criação e a disseminação de soluções, ferramentas, evidências e inovações que contribuam para ampliar o acesso ao cuidado e fortalecer a atenção psicossocial em todo o país.

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