Muitos estudos e opiniões sobre o tratamento da covid-19 com cloroquina e hicroxicloroquina têm ganhado a mídia nas últimas semanas. O seu uso está indicado? Os estudos são confiáveis e “robustos”, cientificamente falando?
A indicação para utilização da cloroquina e hidroxicloroquina se iniciou na China, ao observarem que pacientes que já faziam uso deste medicamento apresentaram melhora da pneumonia causada pelo coronavírus, concluindo que “…os resultados de mais de 100 pacientes têm demonstrado que tratamento com fosfato de cloroquina é superior ao tratamento com placebo na inibição das exacerbações da pneumonia”( Zhaowei Chen).
O primeiro estudo científico publicado sobre o assunto foi o francês Clinical and microbiological effect of a combination of hydroxychloroquine and azithromycin in 80 COVID-19 patients with at least a six-day follow up: A pilot observational study (Gautret e cols.). Este estudo concluiu que há benefício terapêutico da utilização da cloroquina ou hidroxicloroquina, principalmente quando associado à azitromicina, diminuindo-se os dias de utilização da ventilação mecânica e também do potencial de infectividade do paciente, porém este estudo foi fortemente criticado no meio científico.
No dia 08 de abril, foi publicado um Editorial na revista científica BMJ (Ferner), que desaconselha a utilização, discutindo que os artigos apresentados até o momento são pobres e sem força científica para uma indicação segura para o tratamento. A segurança e a efetividade são justamente os pontos de discussão da indicação da cloroquina e hidroxicloroquina, uma vez que podem ocorrer eventos adversos de sua utilização e ainda é controverso na literatura se ela é efetiva para o covid-19. Estes eventos são raros, mas incluem hepatite fulminante, anemia hemolítica, reações cutâneas graves, arritmias cardíacas e problemas oculares.
Diante desta controvérsia, alguns hospitais brasileiros estão utilizando a cloroquina e hiroxicloroquina apenas em pacientes graves, outros estão realizando estudos clínicos em parceria com a OMS, no chamado Solidarity (solidariedade, em inglês), que estuda quatro possibilidades terapêuticas, dentre elas a cloroquina e hidroxicloroquina, para definirmos claramente a eficácia terapêutica destes medicamentos, ou a sua exclusão como proposta terapêutica. Mais recentemente, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) informou que está desenvolvendo um estudo com 500 pacientes distribuídos em todo o Brasil, para testar um medicamento selecionado pelo CNPEM. Em breve todos estes resultados serão publicados e teremos uma indicação científica mais robusta para a tomada de decisão sobre o tratamento medicamentoso do covid-19.
Eder de Carvalho Pincinato é coordenador do curso de Farmácia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

