Quase ninguém pensa que uma criança possa ser contaminada por chumbo, mas o risco é muito mais presente do que imaginamos. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) acaba de lançar um documento sobre os perigos da exposição à substância, baseado em um alerta feito pela Unicef. Um contato prolongado ou com grandes quantidades pode provocar danos cognitivos e de crescimento.
E o risco não é pequeno: o chumbo pode ser encontrado com facilidade na em tintas e canos de casas muito antigas, em baterias automotivas, na fabricação de vidros e cerâmicas e até mesmo em brinquedos feitos de PVC e cosméticos, no caso de países em desenvolvimento, diz a SBP.
Segundo a pediatra Aline Magnino, as crianças sofrem um maior risco de exposição devido a uma série de fatores. Elas costumam ter maior contato com poeiras contaminadas pelo metal ao engatinhar e levar as mãos, objetos e brinquedos à boca. Além disso, absorvem mais o metal do que os adultos.
“A carência nutricional de ferro ou cálcio (comum nesta faixa etária) pode aumentar a absorção do chumbo. Além disso, de acordo com o informe da SBP, nas crianças, o sistema de desintoxicação hepático é biologicamente imaturo e a barreira hematoencefálica é mais ‘permeável’, facilitando a penetração de chumbo no Sistema Nervoso Central”, diz a médica.
A pediatra lembra ainda que a exposição de gestantes ao chumbo também põe em risco o feto, podendo ocasionar comprometimento importante no seu crescimento e desenvolvimento, na visão, na audição e no aprendizado.
Apesar de uma série de restrições ao uso do chumbo já terem sido feitas, ele ainda é utilizado em grande quantidade na fabricação de manilhas, tintas, cosméticos e baterias. De acordo com alerta da UNICEF, seguindo dados da GAHP (Global Alliance on Health and Pollution), o nível sérico médio de chumbo no Brasil é de 2,6mcg%. Porém, em 4.400.000 crianças, os níveis são superiores a 5mcg e em 98.300 excedem 10mcg%, que são níveis considerados neurotóxicos.
Entre os sintomas típicos da intoxicação estão dores de cabeça, perda de sensibilidade, fraqueza, sabor metálico na boca, instabilidade na locomoção, falta de apetite, vômitos, prisão de ventre e cólicas abdominais.
Segundo o alerta da SPB, as intoxicac?o?es em crianc?as sa?o mais comuns em a?reas urbanas do que nas rurais, nas mais pobres e nas que vivem em construc?o?es antigas. Para identificar o problema, diz Aline, é necessário um exame laboratorial que detecte os níveis séricos do metal.
“O primeiro e principal tratamento é afastar a criança da fonte e contaminação. Deve-se também realizar avaliação, identificação de deficiências nutricionais (principalmente ferro e cálcio) e suplementação destes, nos casos necessários. Em casos específicos e sintomáticos, pode haver a necessidade de um tratamento específico com quelantes de chumbo, mas tal indicação deve sempre ser feita por uma equipe multidisciplinar, incluindo um médico toxicologista”, diz Aline.
Conheça os principais riscos de contaminação, de acordo com o documento:
• Ingesta?o ou inalac?a?o de poeira ou lascas de tinta antigas em mau estado de conservac?a?o ou durante as atividades de lixamento ou reformas.
• Canos de a?gua com chumbo em reside?ncias antigas.
• Enlatados com o metal em sua composic?a?o.
• Panelas com chumbo em suas soldas.
• Brinquedos, giz-de-cera e adornos feitos com chumbo.
• Reciclagem de baterias de chumbo de carros
• Medicamentos caseiros e cosméticos
• Móveis reformados

