O comportamento humano é essencial para se combater pandemias. Mesmo com a chegada de vacinas, é necessário entender de que forma é possível gerar comportamentos responsáveis para que as pessoas cuidem de si e dos outros. Após mais de um ano de surto de Covid-19 no Brasil e no mundo, tão relevante quanto lançar mão de normas sanitárias de proteção à Covid-19, é olhar com os olhos da ciência para o comportamento humano, e entender quais fatores influenciam atitudes responsáveis e eficazes de uma comunidade para a adesão a estas normas.
Este foi o principal objetivo do estudo publicado esta semana no periódico científico Social Psychological and Personality Science . O artigo intitulado “Predicting behavioral intentions to prevent or mitigate COVID-19: A cross-cultural meta-analysis of attitudes, norms and perceived behavioral control effects” foi liderado pelo psicólogo e pesquisador do IDOR – Instituto D´Or de Pesquisa e Ensino, Ronald Fischer, e integra a plataforma de pesquisas “Ciência IDOR contra a COVID”, formada por dez frentes de estudos relacionados ao novo coronavírus.
A publicação traz três conclusões esclarecedoras para se compreender a evolução da pandemia em diferentes regiões do mundo, analisando as bases que desencadeiam comportamentos e atitudes de uma comunidade: 1) Normas são um importante preditor de comportamento, sendo essencial que as autoridades facilitem e apoiem regras sociais para motivar a população a se proteger. 2) Em um contexto em que não existe a aplicação de normas claras e firmes, o efeito da motivação das pessoas para seguir as regras sanitárias é menor. A pesquisa do IDOR é a primeira a demonstrar isso. 3) Apresentar a eficácia do comportamento pretendido é importante para gerar a adesão à regra. Com isso é essencial que as autoridades trabalhem com evidências científicas e recomendem medidas com eficácia comprovada. Comunicação clara é essencial e tem efeito no comportamento.
“Mostramos que existem diferenças pelo mundo que explicam por que alguns países conseguiram combater a pandemia com mais sucesso até agora do que outros. Uma observação interessante, analisando os dados publicados, é que em contextos com uma renda média mais baixa, a população está mais motivada a seguir recomendações de proteção no coletivo. Existe a visão de que, como não há muitos recursos financeiros para comprar suprimentos que atuem neste combate, é preciso aderir a medidas para se proteger. Por outro lado, em contexto de renda média mais alta, há esta ilusão de que mais dinheiro significa maior capacidade de contenção e tratamento e não há tanta adesão a regras”, explica Fischer.
Com esta análise, o Brasil, em geral, está caracterizado como uma região de renda média mais baixa, em comparação à Europa e aos EUA, existindo uma orientação naturalmente mais coletiva para a adesão de normas e recomendações. Assim, segundo o pesquisador, seria possível implementar medidas restritivas com o apoio da população e combater a pandemia com essas atitudes comportamentais. Um exemplo citado é o histórico de sucesso das campanhas de vacinação no Brasil para se conter outras doenças graves.
“A falta de normas bem definidas, desde a esfera comunitária até a esfera governamental está bem nítida no contexto brasileiro. Esta foi uma chance perdida que está custando muitas vidas”, destaca.
Para se chegar a estas observações, os pesquisadores conduziram uma metanálise partindo do mapeamento de 83 publicações com a mesma temática, de 31 países, e que tinham como base uma das teorias mais importantes sobre avaliação e intenção de comportamento no contexto da saúde, a Teoria do Comportamento Planejado (TPB, na sigla em inglês).
A Teoria explica que qualquer comportamento de saúde será motivado por vários aspectos psicológicos, principalmente a) a atitude do indivíduo, ou opinião pessoal, sobre se um comportamento específico é bom ou ruim, positivo ou negativo, favorável ou não; b) as normas subjetivas, ou a pressão social decorrente das expectativas de outras pessoas sobre o comportamento, conforme visto do ponto de vista do indivíduo, e c) a eficácia ou controle comportamental percebido do indivíduo, que significa a percepção de sua capacidade de realizar o comportamento específico e a percepção da eficácia do comportamento. Essa teoria permite entender quem vai seguir regras sanitárias e montar campanhas de saúde pública.
“Pesquisas mostram que, geralmente, se pautar em atitudes, normas e nas demonstrações de eficácia são mais efetivas para modificar comportamentos de uma população. Esses insights permitem alcançar comportamentos pretendidos e responsáveis de uma forma bem específica”, conclui.

