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Estudo brasileiro mostra o impacto das diferenças sócio-econômicas em tratamentos de câncer de pulmão

by RcpxRaquelADM

O câncer de pulmão é um problema de saúde global, com mais com 2,2 milhões de novos casos em 2020, sendo responsável por 11,4% da totalidade no mundo. No Brasil, representa o terceiro maior incidente entre os homens e o quarto entre as mulheres. É o câncer mais letal de todos, com 30.200 novos casos esperados em 2020. O tabagismo, como se sabe, é a principal causa da doença. Em cerca de 85% dos casos diagnosticados, há associação com o consumo de derivados de tabaco, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

O tratamento, por sua vez, depende do estágio em que a doença se encontra. Em geral indica-se a cirurgia e a radioterapia – sendo esta uma das principais abordagens, uma vez que 60 a 70% dos pacientes receberão essa terapia durante o curso da doença. E aqueles que não são candidatos à cirurgia ou preferem não se submeter a ela, normalmente recebem a radioterapia como principal opção de tratamento.

Embora de grande importância, a radioterapia ainda é um desafio no Brasil. Um estudo liderado pela médica Lilian Dantonino Faroni, do Instituto D’or de Pesquisa e Ensino, e publicado em maio deste ano no JCO Global Onco , mostrou que cerca de cem mil pacientes acometidos por câncer de pulmão morrem por ano sem ter acesso a radioterapia.

O estudo, intitulado Acesso do câncer de pulmão à terapia de radiação de alta tecnologia no Brasil, traçou um panorama do tratamento no país. “A alta tecnologia tornou as técnicas de radioterapia mais seguras e eficazes. No entanto, o Brasil ainda enfrenta dificuldades no acesso a esse tipo de tratamento, sobretudo no SUS “, diz o oncologista Carlos Gil Ferreira, presidente do Instituto Oncoclínicas e co-autor do estudo.

Atraso

A rede brasileira de radioterapia conta com aproximadamente 363 aceleradores lineares e 20 máquinas de cobalto, que dirigem ao corpo do paciente a radiação produzida continuamente por esse material. Hoje o modelo-padrão é o acelerador linear, que produz radiação pela aceleração de elétrons e somente quando é necessário.

Desligado, ele não produz nem emite radiação. Dos 251 dispositivos atualmente utilizados em serviços habilitados em oncologia no SUS, 38 foram considerados obsoletos. Em 2022, alguns modelos atuais também se tornarão ultrapassados. Assim, se o equipamento não for desativado e substituído em tempo, haverá 51% de aceleradores lineares obsoletos no SUS em 2022.

O que poderia ser evitado

Sabe-se que para tratar os vários tipos câncer, utilizam-se diversas técnicas, mas pelo menos 60% deles requerem radioterapia. Para o câncer de pulmão, este número chega a 77%. Portanto, estima-se que a cada ano haverá cerca de 21890 novos pacientes com câncer de pulmão que necessitam de radioterapia. Em 2016, foram gastos 823 milhões de dólares com esta doença no Brasil, com uma taxa de mortalidade de 80%. Sem mencionar que 64 mil pacientes morrem anualmente de câncer de pulmão na América Latina.

Em 2015, 80 aceleradores lineares foram adquiridos pelo governo federal brasileiro para serem instalados em todo o país. Cinco anos depois, apenas 35 instalações foram realizadas. “Acredita-se que, se nenhuma medida for tomada, em 2022 o Brasil terá apenas 269 máquinas em operação”, diz o Dr. Carlos Gil Ferreira. A OMS recomenda uma máquina para cada 500 mil habitantes, o que significa que o Brasil com uma população de 211.800.000 habitantes terá um déficit de pelo menos 155 máquinas, já que o país precisa de um mínimo de 424 máquinas para atender a demanda da população.

“Outros estudos mostraram que milhares de pacientes com câncer que necessitam de radioterapia não têm acesso a este tratamento no SUS brasileiro. Acredita-se que pelo menos cinco mil mortes seriam evitadas anualmente se o acesso a radioterapia fosse adequado”, afirma o médico. Para melhorar a disponibilidade de equipamentos e de radioterapia em todas as regiões brasileiras, é necessário um aumento no financiamento, nos recursos humanos e um treinamento adequado de pessoal qualificado, conclui a pesquisa.

 

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