Casos de câncer de mama crescem em mulheres jovens e impactam mercado de trabalho
Doença afeta a saúde física e vida profissional das pacientes. Estudo revela que 4 em cada 10 mulheres não conseguem manter o emprego após diagnóstico
Apesar de ser mais comum em mulheres com idade a partir dos 50 anos, a incidência do câncer de mama em mulheres jovens têm crescido no Brasil e no mundo. O percentual de brasileiras com menos de 40 anos diagnosticadas com câncer de mama aumentou de 7,9% em 2009 para 21,8% em 2020, de acordo com análise de 2022 feita por pesquisadores do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp).1 Outro estudo, publicado em 2024 no JAMA Network Open, indicou o aumento do número de casos da doença nos Estados Unidos, especialmente na faixa de 30 a 39 anos.2
Além dos impactos na saúde física, o diagnóstico nessa idade – quando parte significativa das mulheres são ativas no mercado de trabalho – representa um desafio a mais: o de conciliar a vida profissional com o tratamento. Uma pesquisa encomendada pela Astrazeneca e realizada pelo Datafolha3 revelou que a taxa de participação na população economicamente ativa diminuiu de 62% para 33% após o diagnóstico. Além disso, 60% das participantes, independentemente de sua situação laboral anterior, relataram que suas condições de trabalho mudaram desde o diagnóstico.
O estudo foi realizado em setembro de 2024 com 240 mulheres de cinco capitais brasileiras, a partir dos 18 anos, diagnosticadas com câncer de mama. Entre as entrevistadas que trabalhavam no momento do diagnóstico, 4 em cada 10 não conseguiram manter seu trabalho, o equivalente a 41%. As mais afetadas foram aquelas com empregos com carteira assinada e freelancers. Outro dado, do Icesp, aponta que 40% das mulheres com câncer de mama não conseguem retornar ao mercado de trabalho.
“A discussão sobre os impactos do câncer de mama nas mulheres jovens deve ser amplificada, não só no mês no qual se comemoram o Dia das Mães e o Dia do Trabalho, mas no ano todo. É preciso que a sociedade entenda que não é só sobre o tumor – um diagnóstico desse tipo afeta diretamente a vida profissional, social e reprodutiva da mulher, alterando dinâmicas no mercado de trabalho e no planejamento familiar, por exemplo”, ressalta a [b]Dra. Maira Caleffi[/b], Presidente Fundadora da FEMAMA e Chefe do Núcleo Mama do Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre.
[b]Quais os direitos da pessoa com câncer de mama no trabalho?[/b]
Pessoas diagnosticadas com câncer de mama podem continuar trabalhando dependendo do caso de cada paciente, considerando o tipo de tratamento e estado de saúde geral. Manter-se no emprego é possível, uma vez que doença grave não é motivo para o desligamento do funcionário. A Constituição Federal considera discriminatória a demissão sem justa causa de um funcionário que porta uma doença grave, como o câncer. Em casos de demissão por justa causa, o empregador deve comprovar que a decisão não está relacionada à doença e apresentar uma justificativa plausível. O empregado pode recorrer à Justiça caso se sinta discriminado.
A decisão entre continuar com as atividades profissionais habituais ou solicitar um período de licença médica deve ser tomada em conjunto com o médico responsável pelo tratamento. Além disso, é recomendável que o paciente dialogue com seu empregador sobre sua situação e as necessidades do tratamento. Durante essa conversa, podem ser exploradas alternativas e adaptações na rotina de trabalho que facilitem a conciliação do tratamento com as responsabilidades profissionais, como a flexibilização de horários, a possibilidade de trabalho remoto, a redistribuição de tarefas ou a concessão de pausas adicionais para procedimentos médicos.
Além disso, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, inciso X, garante o direito à privacidade, protegendo, assim, a relação médico-paciente e a vida íntima do trabalhador. Portanto, nenhum paciente é obrigado a fornecer informações sobre sua saúde em processos seletivos ou durante o período de trabalho, evitando constrangimentos e exposição de sua privacidade.
Outros direitos do paciente podem incluir, a partir de uma análise individual de cada situação, auxílio-doença, possibilidade de retirar recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), isenção do pagamento de imposto de renda e acesso ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
[b]Mobilização em prol do diagnóstico precoce[/b]
A detecção precoce do câncer de mama pode aumentar significativamente as chances de cura, chegando a 95% em alguns casos.5 No entanto, para que isso ocorra, é necessário que haja um diagnóstico precoce, realizado por meio de exames clínicos, exames de imagem (como mamografia e ultrassonografia), e biópsia para confirmação da presença de células cancerígenas. O rastreamento também é importante, principalmente para as pessoas com histórico da doença na família ou predisposição genética ao desenvolvimento do câncer.
Em relação ao rastreamento, a rede FEMAMA, junto a sociedades médicas, alcançou uma vitória na Consulta Pública n°144, da Agência Nacional de Saúde, aberta entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, resultando na definição de critérios para certificação de qualidade em oncologia, que deverão compor o rastreamento de usuárias de planos de saúde para o câncer de mama na saúde suplementar. Foi estabelecido como um critério a realização da mamografia de rastreamento anual para mulheres com idade entre 40 e 74 anos, e não bienal entre 50 e 69 anos, como proposto inicialmente. Foram mais de 63 mil contribuições, em uma das maiores manifestações em consultas públicas do órgão. O intervalo dos exames de rastreio dependerá do médico solicitante e em decisão informada e compartilhada com a paciente, de acordo com a necessidade.
Com esses critérios para o rastreamento, aumenta-se a chance de detectar o câncer em estágios iniciais. Isso impacta diretamente nas chances de cura e na qualidade de vida das pacientes ao longo da jornada oncológica.
Casos de câncer de mama crescem em mulheres jovens
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